Durante a experiência com o autismo, tive oportunidade de ter outros olhares sobre quase todas as coisas.
Comecei a usar alguns filtros como mecanismo de fuga a coisas tóxicas que sabidamente estavam me fazendo mal, porém algumas coisas ainda me incomodam profundamente sob os olhares do "outro" que rotineiramente recaem sobre nós, nos mais variados ambientes e das mais variadas formas.
Hoje chego à conclusão, com profunda tristeza, de que vivemos um tempo sombrio, numa sociedade que adoeceu e ninguém percebeu.
As pessoas passaram a julgar tudo e todos e a achar que suas verdades são absolutas.
Cada vez vejo menos empatia, menos acolhimento e mais condenações.
O tribunal do juri do homem passou a ser olhares maldosos, que numa velocidade surpreendente, apontam, discorrem sobre o fato, condenam e sentenciam as pessoas.
No meu caso, ou melhor, no nosso caso, o condenado é o autismo e o delito são os comportamentos inadequados.
Invariavelmente, todas as vezes que saímos, sempre existe alguma coisa que acaba não dando certo!
Esses dias fomos ao mercado por exemplo e durante uma contrariedade, que já nem lembro o que era, o Théo começou a ficar muito irritado, a gritar, a me agredir e todo mundo parou para olhar, como se aquilo fosse um espetáculo.
Eu tentado colocar um menino que pesa 23 kg no carrinho, que andava quando encostava nele, pois eu não tinha uma mão livre, ou uma perna, ou algo que pudesse firmar o carrinho de modo que conseguisse colocá-lo ali de novo.
Engraçado e lamentável é o fato de todo mundo estar vendo e ninguém sequer tentar intervir, ajudar ou ao menos perguntar se está tudo bem.
Apenas cara feia de todos os lados!
Acabei saindo da minha costumeira atitude de mãe inabalável, achando que estava tudo bem e dessa vez eu gritei pedindo ajuda...
Uma mulher veio ao meu encontro e pedi apenas que ela segurasse o carrinho.
Consegui colocá-lo, graças a ajuda... mas ele já estava tão fora do ponto normal, e chorando tanto, que acabou vomitando na roupa, nas compras, no chão e acabamos de fazer as compras com ele apenas de cueca.
Uma sequência de situações constrangedoras para mim, para ele...
E sempre tem um episódio desses em quase todo lugar que vamos.
Não é fácil!
Muitas pessoas acabam desistindo, se trancando em casa para evitar esses momentos desconcertantes.
Mas é o preconceito que machuca, o olhar de julgamento. São as pessoas com seus olhares de reprovação quase trazendo a frase na testa: seu filho é muito mal educado ou mimado, você é uma péssima mãe, coisas assim.
No entanto essa mãe, que as pessoas julgam, simplesmente deixou toda a sua vida de lado em nome desse filho!
A mãe que leva às terapias todos os dias, que faz plantão a noite, que come errado, geralmente um pão com qualquer coisa, e não sabe mais o que é saborear um prato de comida quente e de verdade.
Não dorme, que não compra uma peça de roupa nova pra ela, que não sabe o que é vaidade, auto-estima ou auto-cuidado!
Uma mãe que renunciou a tudo para que seu filho tenha o melhor desenvolvimento possível.
Não sei quando as pessoas ficaram assim tão cruéis!
Me sinto péssima nessas situações e simplesmente não sei o que fazer.
O ser humano deixou de ver o outro como humano e passou a ver apenas um objeto, que ele mesmo pode gostar ou não e se não formos adequados, seremos retalhados, ou metralhados por eles.
Quero dizer que tenho visto o preconceito como uma grande e monstruosa doença da sociedade.
E posso dizer sem medo, que isso atinge a maioria das famílias de autistas (porque o autismo não tem cara), mas é o mesmo preconceito que atinge outras deficiências, negros, a comunidade LGBTQIA+, pessoas mais pobres, religiões e por aí vai.
E o problema não somos nós, que somos quem somos ou quem quisermos ser nessa vida, o problema são vocês, que acham que podem normatizar a humanidade em padrões que convém às suas próprias vivências e convicções.
Muito ajuda quem não atrapalha!
Se você não pode ser a pessoa que entende, apóia e acolhe o outro, seja então o que ignora e finge não estar vendo.
Deixe seus julgamentos em seus pensamentos e apenas nos respeitem, pois temos o direito a ser como somos, a ter liberdade e sermos felizes.
O autismo antes de ser um transtorno complexo e cheio de comportamentos diferentes em cada "portador", é uma diferença como tantas outras, que deve ser respeitada!
Estou cansada, muito cansada e por trás da criança que vocês estão julgando, tem uma grande equipe trabalhando duro para desenvolver esse indivíduo.
São 02 professoras no CMEI, 01 psicóloga, 01 T.O e 01 Fono numa clínica, mais 01 T.O de Integração Sensorial noutra, 02 professores de educação física trabalhando psicomotricidade na piscina, 01 professora de musicalização, 02 profissionais na equoterapia, o neuro, a pediatra, os pais, irmã, avó, amigos...
E cada vez que você reprova meu filho com seu preconceito, você está desconstruindo todo o trabalho que lutamos para construir.
Estamos cansados de pessoas assim...
Queremos e acreditamos no RESPEITO e a sociedade nos deve isso!
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